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Leia o registro de um contemporâneo da peste negra.


Eis que, em outubro do ano de 1347 da Encarnação do Senhor, (...) muitos genoveses, em doze galeras, fugindo à cólera divina que se abatera sobre eles em razão da sua iniquidade, acostaram no porto da cidade de Messina. Os genoveses transportavam consigo (...) uma doença tal que quem quer que tivesse falado com um deles era atingido por essa enfermidade mortal (...). As pessoas odiavam-se umas às outras a ponto de, se um filho fosse atingido pelo mal, o pai se recusar terminantemente a ficar do seu lado; e se ousasse aproximar-se dele, seria de tal modo atingido pelo mal que não haveria modo de escapar à morte (...).

(Michel de Piazza. Historia secula ab anno 1337 ad annum 1361.

Apud Georges Duby. A Europa na Idade Média, 1988.)


A partir do trecho, pode-se afirmar que a peste negra era encarada como

O século XIV testemunhou uma crise da antiga ordem feudal, seguindo bem nos calcanhares do surgimento das cidades corporativas com grande medida de autonomia local, política e econômica, bem como uma influência grandemente aumentada nos negócios nacionais. Nessa crise, o modo de produção feudal, baseado na servidão, foi seriamente abalado e atingiu um adiantado estado de desintegração, cujos efeitos foram vistos na economia senhorial do século seguinte.
(DOBB, 1965, p. 33.)
A crise a que se refere o excerto anterior, na verdade:
Várias heresias foram combatidas e seus partidários condenados à morte. Mas suas ideias contribuíram, séculos depois, para a Reforma Religiosa. A formação das monarquias modernas foi outro fator que colaborou para o nascimento do movimento reformista, uma vez que o conflito entre o poder temporal, representado pelo Rei, e o poder espiritual, representado pelo Papa, constituía um obstáculo ao fortalecimento da autoridade central. Além disso, os dízimos transferidos para Roma prejudicavam as finanças dos Estados. E as extensas propriedades da Igreja em cada reino eram cobiçadas pelos reis e pela nobreza.
(VARIA HISTÓRIA, Belo Horizonte, vol. 23, nº 37: p.130-150, Jan/Jun 2007.)
Na esteira das transformações ocorridas na transição da Idade Média para a Idade Moderna, antes mesmo dos grandes reformistas, alguns movimentos são considerados precursores da Reforma, tais como o caso de John Wycliffe e o caso do padre Jan Huss, cujos movimentos:
Durante boa parte da Idade Média, em especial a Idade Média Central e a Baixa Idade Média, quase todos os elementos da vida neste período mostravam-se abertamente: a peste, a morte, as calamidades; os grandes fatos da vida, as catástrofes, o nascimento, o matrimônio, o enterro, o cemitério; a Igreja, as procissões, os julgamentos, as transações comerciais; a fé, a justiça, as aventuras do cavaleiro, o amor, a cidade e o campo; o real, o imaginário, os fantasmas, os vivos e os mortos, os santos; a Igreja e o cisma; os papas e os reis; o fim do mundo, o reino das trevas, o paraíso e homem. “Tudo o que acontecia na vida era dotado de contornos bem mais nítidos que os de hoje.” (HUIZINGA, 2015, p. 11.)
Basicamente, em todos esses eventos do cotidiano, pairava a presença soberana da Igreja Católica, que, entre os muitos métodos de expandir seus dogmas e preceitos, utilizou-se:
“(...) em todas as formas de sociedade, é uma determinada produção e suas relações que atribuem posição e influência a qualquer outra produção e suas relações. É uma iluminação geral, em que são imersas todas as cores e que modifica suas tonalidades particulares. É um éter especial a definir a gravidade específica de tudo o que dele se destaca.” No lugar da noção de primazia do “econômico” (mais “real”) – com que as normas e a cultura são vistas como reflexos secundários –, o que essa passagem enfatiza é a simultaneidade da manifestação de relações produtivas particulares em todos os sistemas e áreas da vida social.
(THOMPSON, 2001.)
Especificamente no que se refere ao feudalismo e suas relações produtivas: