Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a
ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o
retrato de uma menina de 1910, vestida de branco.
Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário,
com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de
coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se
usavam no começo do século, para emprestar às
fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia
atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira
estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas
finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca
enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita
gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor,
chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça,
mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios
cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil,
disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de
implícita curiosidade. A menina está séria, de pé,
imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a
buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria,
naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o
cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado
para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está
meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva,
deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do
retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria
Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres.
Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo
cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo.
Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem
sequer conheço a parenta distante que deixou, sem
explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei
apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há
71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na
cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho
cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos
de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever,
sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse
que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem
duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda,
grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma
fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a
blusa folgada da saia pequena, de três babados, que
termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo
arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de
Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de
ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada;
uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a
menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados,
está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa
deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as
cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe
essa expressão estática das antigas bonecas de luxo.
Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser
um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e
só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em
dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar
retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino
esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de
Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada
de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a
boneca na semana anterior, como encomenda postal,
acompanhada por uma carta, em letra inclinada e
minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um
retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da
missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo,
repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a
próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão,
cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia
do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a
expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o
fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! -
enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala,
aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria
Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido,
provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em
outros tempos, em outras terras, em outro tudo -
desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota,
nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me
aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do
que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos
escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi
essa menina, em que mulher se transformou, com que
marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus
partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas
angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a
boneca: se espatifou contra o chão, depois de um
movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra
menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica
de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos
percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua
companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por
uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase
octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta
crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as
minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú
de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também
tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa
que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava?
Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no
soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o
retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
No trecho abaixo, analise o verbo sublinhado sob o ponto
de vista da sintaxe dos modos e dos tempos, e assinale a
opção correta.
“Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam
os figurinos de então." (4°§)